domingo, 10 de julho de 2011

SORAYA RAVENLE E SUA BELA ARCA DO TEMPO.



...Os sonhos que eu sonhei, senhorá
Eu quero sonhar de novo
Senhora, senhorá ...

Este belo samba-de-roda inédito é a segunda faixa do primeiro CD gravado pela atriz Soraya Ravenle, e é todinho dedicado ao poeta/compositor Paulo César Pinheiro, voz apurado e gosto refinado que busca o que há de melhor a voz de Soraya ocupa todos os cantos aqui de casa quando esta a tocar “Arca do tempo” bonito titulo deste trabalho.

Paulo César Pinheiro já recebeu várias homenagens, mas este feito pela atriz de voz de ouro é de fato algo especial, a tarimba que a atriz de musicais que tem enchido nossos olhos e ouvidos com beleza escolheu certeiramente composições inéditas e antigas deste que talvez seja o maior compositor vivo e em plena produtividade da M.P.B.

Acostumamos ver Soraya Ravenle em musicais que já foram inclusive perpetuados em DVDs que certamente compõem o acervo de todos os amantes da música brasileira, portanto ao ouvir cada faixa do CD “ Arca do tempo” é impossível não imaginá-la no palco transbordando elegância, suavidade e graça ao cantar cada canção que foi escolhida a dedo por ela e por Alfredo Del-Penho um profundo conhecedor da obra de Paulo César Pinheiro.

Este trabalho merece ser transformado um espetáculo que dignifique e perpetue o tamanho do talento que existe no trabalho que Soraya Ravele desenvolve nos palcos do Brasil já há algum tempo, saber que existem vozes que nos tocam com tamanha profundidade é motivo de alegria impar.

O desejo de não parar de ouvir “Arca do tempo” é enorme, e por isso ele toca, toca e toca aqui em casa, mais uma vez a gravadora Biscoito Fino acerta em colocar a nossa disposição trabalho de tamanha qualidade e apuro. Que em breve possamos ter um belo DVD mostrando um belo show solo desta que é sem duvida uma das maiores vozes deste Brasil tão grande.



Paulo Gonçalo
Pesquisador de M.P.B.
paulogoncalo@uol.com.br

sábado, 9 de julho de 2011

MARIO ADNET EM + JOBIM JAZZ, UM PRESENTE AOS OUVIDOS.

















Ouvir ao ultimo trabalho de Mario Adnet lançado pela gravadora Biscoito Fino, o CD “+Jobim Jazz” é um verdadeiro presente aos ouvidos já cansado da mesmice que toma conta há muito tempo do cenário músical brasileiro e mundial, ainda bem que é possivel ser feliz ouvindo boa música.

A música instrumental sempre me fascinou, sorbetudo a brasileira que é tão relegada a segundo plano, apesar do Brasil ter tido o privilégio de ver nascer entre seus filhos Heitor Bvilla Lobos, os filhos deste Brasil não aprendem a ouvir música instrumental, seja a clássica ou a popular.

Um pais onde se esquece com facilidade quem tanto contribui para o enriquecimento cultural de gerações e gerações tem o pessimo habito de relegar a um segundo plano os grandes músicos que nossa terra forja apesar de todas as dificuldades e este é o caso do estupendo Mario Adnet.

Vale mesmo a pena deixar-se levar pela levesa que o som de Mário Adnet nos proporciona, através de composições do Maestro Soberano ele proporciona a nossos ouvidos um verdadeiro descanso desta poluição sonora que insistem em chamar de música, é possivel viajarmos ao interior de nossos corações ouvindo esta fusão Adnet + Jobim + Jazz, incrivel.

Acredito que este é um tipo de trabalho que deveria chegar a grande população brasileira, deveria ser entregue as escolas, deveria ser ouvido nas aulas, deveria ser comentado muito e muito. Prazer inigualavel numa tarde fria de inverno que se aquece aos som da música destes mestres nascidos neste pais chamado Brasil. Salve Mario Adnet!



Paulo Gonçalo dos Santos
Historiador / Pesquisador de MPB
paulogoncalo@uol.com.br

quarta-feira, 6 de julho de 2011

SURURU NA RODA ME CHEGA ATRAVÉS DE LINDOS AMIGOS.
















"Ganhei no último dia 30 de junho um belíssimo CD de um casal de queridos amigos, “Marisa e Eufrate” desde então ele não sai dos ouvidos é maravilhoso, resolvi não escrever sobre ele já que o grande poeta e escritor “Nei Lopes” o fez com maestria, vale a leitura, vale a compra do CD eis a música brasileira de qualidade."

Segundo o velho filólogo Silveira Bueno, o termo “sururu”, na acepção de briga, conflito, vem do fato de os sururus, caranguejos pretos dos mangues, viverem amontoados e se debaterem em constantes brigas em disputa de espaço. Mas a “roda” de que vamos tratar agora, e em que o nosso Sururu corajosa e prazerosamente se debate é, ao invés de um "mangue", aquele ambiente onde um grupo se reúne informalmente para tocar, cantar e viver o samba e, é claro, o choro. Sim, o choro, estilo que bem mais que aquela coisa eruditóide e meio devagar que alguns pretendem seja, é a face instrumental mais exposta e tradicional do samba - circunstância que, aliás, só enobrece e fortalece tanto um, o gênero, quanto outro, o estilo.

Nascido para tocar e cantar samba e choro, ou seja, a música popular brasileira na sua forma mais carioca e universal, o grupo Sururu na Roda foi criado em 2000. E surgiu a partir do talento, da inventiva e da experiência de uma musicista excepcional, Nilze Carvalho. Por volta de 1975, com apenas 6 anos de idade, Nilze, nascida Albenise de Carvalho Ricardo, era descoberta como executante de cavaquinho, no estilo choro, e logo se apresentava em programas de rádio e TV, inclusive na prestigiosa Rede Globo.

Aos 11, já como bandolinista, iniciava carreira discográfica, fazendo, três anos depois, sua primeira turnê internacional, exibindo-se em teatros na Itália, Espanha, França e Suíça. Mais tarde, apresentou-se em Los Angeles, Nova York e Las Vegas, além de cumprir temporadas no Japão, de 1991 a 1997. Nos anos seguintes tocou profissionalmente na China, Austrália e Argentina. No Brasil gravou a série Choro de Menina, em quatro volumes, e o CD Chorinhos de Ouro, Vol. 4.

Nos anos 90, Nilze resolvia transformar sua musicalidade inata, desenvolvida em casa, em algo mais sólido e formal. E, aí, no curso de licenciatura em música da UNI-RIO, que agora conclui, conheceu Camila Costa (22 anos, voz e violão) com quem, mais o irmão Silvio Carvalho (37, voz, percussão e cavaquinho) e Fabiano Salek (28, voz e percussão) formou o grupo Sururu na Roda. Nilze e Camila, como dissemos, têm formação musical acadêmica já praticamente completa. Fabiano, filho da flautista, cantora e compositora Eliane Salek e do saudoso maestro Marcos Leite, inovador do canto coral na música popular e fundador do Garganta Profunda, grupo do qual nosso jovem músico também faz parte também é formado em licenciatura em música pela UNI-RIO. E Silvio, filho de músico e acompanhante da irmã desde o início de sua carreira internacional, é igualmente músico refinado, embora sem instrução formal completa.

Com esse material esplêndido na mão, foi relativamente fácil ao produtor e arranjador Ruy Quaresma fazer um disco diferente e primoroso. A começar pelo repertório. Alinhavando sambas, maxixes, choros etc. cujas datações vão de 1929 (Dorinha, Meu Amor e Gavião Calçudo) a 1983 (Samba do Grande Amor); aproximando autores aparentemente distantes como Noel Rosa de Oliveira, o maior compositor do morro do Salgueiro, e Chico Buarque; juntando, no mesmo baú de preciosidades, sambas injustamente esnobados como os polêmicos “O Conde e Esperanças Perdidas” este, alvo de uma disputa autoral cabeluda, nos anos 70; trazendo a registro, além de um clássico do samba instrumental, Na Glória, até mesmo a valsa espanholada Santa Morena, ícone do repertório bandolinístico; compondo, enfim, um mosaico da melhor música popular brasileira, Ruy e o Sururu abriram a roda e, literalmente, “deitaram e rolaram”.

Para tanto, contaram com a competência, o talento e a energia dos excelentes percussionistas Marcelinho Moreira, Ovídio Brito e Eber; dos “sopristas” Humberto Araújo, Eliane Salek e Roberto Marques (trombone na faixa 5); dos “cordistas” Alceu Maia (banjo, faixas 2 e 4), Carlinhos Sete Cordas, Luis Filipe de Lima e Nicolas Krassik (violino, faixa 12); e da canja tão fundamental quanto despojada de ?São Chico Buarque - além do próprio Quaresma, ao violão.

O Sururu é isso. Música para ouvir, dançar e cantar junto. E quem já viu o grupo ao vivo, nas noitadas da Lapa ou em ambientes mais contidos, sabe do que estou falando. Falo de Nilze Carvalho, deusa congo-iorubana transbordando música e sensibilidade, liderando o grupo só no olhar, com pouquíssimas palavras e sem nunca altear a voz; e se multiplicando ao bandolim, ao cavaquinho e ao violão, em afinações totalmente diferentes, as notas fluindo de seus dedos e a voz brotando do coração.

Falo de Camila Costa, voz limpinha, cristalina, dando, com seu violão, o tom de leveza e frescor do grupo. Falo de Fabiano Salek, esbanjando energia, estraçalhando na percussão e nos vocais; e usando a voz até como cuíca. Falo do carisma de Silvio Carvalho que, no palco, empresta um brilho todo especial à performance do Sururu; e que, na maior tranqüilidade, segura a harmonia do cavaco quando Nilze sola ao bandolim.

Em comum, os quatro têm uma saudável particularidade: qualquer dia, hora e lugar em que se chegue, vai-se encontrá-los cantando, vocalizando e tocando como se tivessem começando naquele momento. Não se importam que as pessoas dancem: muito pelo contrário! Como dia desses, em que Nilze sinalizando com o olhar, fez com que o grupo repetisse a segunda parte do Brasileirinho, pois o salão estava se enchendo de dançarinos.

Pois o Sururu na Roda é isso! Mas é música para pensar, também. Principalmente no enorme mangue que separa a roda que nós queremos, a da boa música, desse tremendo “sururu” (no mau sentido) que, em nome da tal globalização, andam nos tentando empurrar goela adentro.

Fonte: Nei Lopes

sexta-feira, 1 de julho de 2011

ROSA MARIA PANICALI UMA VOZ QUE O TEMPO ABENÇOOU.





Rosa é uma daquelas figuras que entram em sua vida e se instalam para sempre. Comigo foi assim estamos no ano de 1989 ambos trabalhávamos com educação no município de São Paulo e a cidade vivia anos de intensa expectativa com a primeira mulher eleita em nossa cidade, eu e Rosa demos nossa contribuição para este governo trabalhando lá no antigo NAE -4.
Depois desta gestão voltamos para nossas atividades como educadores em cantos diferentes da cidade, voltamos a nos encontrar novamente quando outra mulher tornou se prefeita de São Paulo já no século XXI, mais quatro anos de trabalho pela educação de nossa cidade.
Nunca neste tempo todo imaginei que Rosa tivesse voz tão linda, falávamos sempre sobre música ela me contava sobre seu primo o grande Lirio Panicali e eu sobre as vozes femininas deste nosso Brasil que tanto tocam meu coração.





Assim caminhava nossa amizade até que há pouco tempo recebo de Rosa um presente incrível canções que ela gravou, bem dai em diante o amigo que já era fã da mulher forte que Rosa sempre foi, transformou Rosa numa de suas divas da canção popular de sua vida, eis ai como presente dois clips de áudio que divido com voces, numa ela canta Roda dos Ventos de Chico Buarque noutra ela canta lindamente a canção People, espero que curtam muito !


Paulo Gonçalo dos Santos
Pesquisador de MPB

domingo, 26 de junho de 2011

MARINA LIMA “CALL ME” EM SEU CD “CLIMAX”.













“... Só não me venha mais com amor...” (Marina Lima / Adriana Calcanhoto). É esta a canção que abre o mais recente trabalho fonografico da querida cantora Marina Lima, icone de minha juventunde e compositora da frase que me motivou a correr atras de meis ideais “...você me abre seus braços e a gente faz um país..” nos anos 80.

Seu primeiro CD de inéditas depois de alguns anos e após ter se mudado para São Paulo, a cantora de postura forte e decidida que consquistou espaço na MPB chega em nossos ipods, mps, myspace, enfim, com um trabalho revigorante que deixa muita gente da nova geração no chinelo.

O CD intitualdo “Climax” e distribuido pela Microservice S&D e traz Marina Lima fazendo parceria com gente boa como: Adriana Calcanhoto, Edgar Scandura e Samuel Rosa. O restante das canções são de autoria de Marina Lima que mostra que continua antenadissima com o tempo que vive, e há muito as composições de Marina Lima não tinham tanta força.

Alem dos parceiros nas composições, Marina convida para dividir com ela os vocais em Climax os parceiros Samuel Rosa, Edgar Scandura e a novidade está na participação de Vanessa da Mata na canção “A Parte que Me Cabe”, que diz assim “...me deixa queita com minha solidão, a vida é minha e também meu coração...”

Marina Lima já há algum tempo vem cantando à meia voz, o que não diminui em nada o brilho de sua figura, afinal, quem é capaz de esquecer daquela imagem soberana dela sob o piano tocado por Angela Ro Ro cantar divinamente uma canção no inesquecivel especialda Rede Globo “Mulher 80”?

Climax é CD fundamental para quem gsota de cantoras de e com atitude.


Paulo Gonçalo dos Santos
Historiador / Pesquisador de MPB
paulogoncalo@uol.com.br
Andre L. M. Menezes
Revisão Afetiva

PREFÁCIO DO LIVRO - MÚSICA POPULAR BRASILEIRA - VOL 1 E 2 DE MARIO LUIZ THOMPSON - EDITORA BEM TI VI


















Os 400 mil registros fotográficos que Mário Luiz Thompson acumulou ao longo de 30 anos de atividade abrangem um amplo espectro do modo de ser brasileiro. Conduzindo sua câmera pelo cenário majestoso da nossa terra, o fotógrafo tomou como referência básica a Música Brasileira, onde compositores, cantores, instrumentistas e arranjadores produzem a mais caleidoscópica colméia de melodias, ritmos, cantos e danças. Sua documentação da expressão fisionômica e das peculiaridades físicas e gestuais dos artífices dessa polifonia é o fio de Ariadne através do qual tece um amplo mural da cena brasileira, onde o nosso imaginário, os sonhos, as desilusões e esperanças repercutem melodias harmoniosas e versos dissonantes.

“Gigante pela própria natureza”, conforme lembra ufanisticamente seu hino e confirma a vastidão de nosso espaço geográfico, o Brasil se constitui numa pluralidade de regiões, paisagens, climas e tipos humanos, cuja característica cultural mais marcante tem sido a diversidade de sua expressão sonora e musical. Da cantiga do pastoreio dos pampas gaúchos, da toada pantaneira e da música caipira do interior paulista ao cantochão mineiro e ao choro carioca ou ao baião, ao frevo e ao xote nordestino, percorremos uma trilha pontuada por ritmos dançantes de larga tradição até àqueles que irrompem a cada nova estação, corroborando o velho dito da nossa sabedoria popular de que “tudo dá samba”. Produto da fusão de elementos procedentes das culturas européia e africana, que incorporaram as raízes nativas dos indígenas e cuja interação se espalhou ao longo de um imenso território, a música brasileira é única pela diversidade de seus ritmos e riqueza de sua melodia.

Se a música pode e deve refletir o todo - como parecem dizer as 100.000 fotos que o artista pacientemente conservou - foi também necessário perceber as múltiplas características de nossas regiões, com suas formas físicas e humanas e seu linguajar próprio, gerando um rico tecido sonoro em que a percussão de um tambor pode apresentar a mesma elaboração técnica de uma sinfonia. A opção do fotógrafo em retratar cada um dos executantes deste concerto de diferentes sons e ritmos reflete o seu desejo de contar não uma, mas muitas histórias - por meio daqueles que realizam o nosso mais recôndito desejo de nos exprimir. Nos 985 músicos que conseguiu registrar, encontram-se os traços distintivos e marcantes do nosso mais abrangente mosaico étnico, capturados no momento em que se dedicam por inteiro à criação de sua arte maior.


Não se contentando em buscar um simples registro iconográfico, Mário Luiz tentou ir além do simples epifenômeno do gesto posado, da foto de capa de revista, na ânsia de criar um espelho onde o próprio retratado pudesse se reconhecer. Mais ainda, num esforço de superação de sua própria individualidade, procurou se colocar no espaço cênico de maneira a não intimidar o objeto de sua atenção, sem permitir ao mesmo tempo que a busca de um momento de maior emoção desbordasse num ângulo sensacionalista ou no trejeito grotesco de efeito fácil. Emblemático de sua integração sensorial com a cena registrada é o instante em que - no afã de capturar toda a dramaticidade do gesto de Maria Bethânia – o fotógrafo coloca a câmera no chão do palco onde a artista decidiu se estirar. Ao mesmo tempo, sua lente é também capaz de registrar o êxtase, o delírio e até mesmo o momento do mais profundo abatimento e prostração de seus retratados, na busca de um minotauro que em absoluto os diminui mas, ao contrário, somente os humaniza.

Sua postura nas 1462 fotografias escolhidas, ao longo de sua enciclopédia musical que vai de (A)bel Ferreira a (Z)izi Possi, visou sempre restituir a todos e a cada um individualmente a sua verdade intrínseca e extrair a nota precisa da emoção que o momento comportava. Embora marcado por uma coerência e rigor levados ao extremo, seu envolvimento não é menos emocional ou intuitivo. No rastro das milhares de apresentações musicais que presenciou e documentou, o fotógrafo procurou traduzir as mais intensas vibrações melódicas, os élans da alma e as pulsações do corpo dos músicos, em imagens que refletissem aquele momento mágico.

Combinando o necessário rigor do registro antropológico - a descrição gráfica do movimento do corpo, o olhar, o trejeito, a contração do semblante na busca da nota apropriada - com a percepção sensível do momento certo - a visão geral do conjunto, a iluminação da cena, a projeção do som por todo o ambiente - a fotografia de Mário Luiz Thompson anseia por restituir a verdade do artista no momento de sua maior integração consigo mesmo e com sua forma de expressão.

Na linha da nossa melhor tradição fotográfica de observação social e antropológica, o fotógrafo busca compreender a expressão musical brasileira como um atributo de seu povo e de seu modo de ser. Desde a mais remota imagem que produziu - um garoto fabricando sua rústica guitarra/instrumento a partir dos restos do lixo da favela de Alagados, na Bahia – o artista não se cansou de procurar compreender a equação de como um povo constrangido a perseguir incessantemente os meios primários de uma sobrevivência precária é capaz de criar uma Arte cujo valor é reconhecido internacionalmente. Celebrizada em capa de disco e outras publicações, essa imagem se tornou um ícone das nossas contradições e da relação do artista com a cultura baiana e seus diferentes epígonos.
Ao mesmo tempo imbuído de um espírito de observação jornalística e antropológica, Mário Luiz Thompson decidiu não privilegiar os astros e as estrelas de primeira grandeza do firmamento da MPB, mas se esforçou em compor minuciosamente a sua pirâmide, desde a base dos músicos quase sempre anônimos, a chamada “cozinha” instrumental das gravações, até o compositor que irá produzir o machadiano “molho” original.

Por outro lado, o fotógrafo aguçava a sua percepção para o novo que irrompia a cada instante e ia ao encontro do artista que estava surgindo ou do primeiro show da banda que começava... Se o acaso é uma decorrência do rigor, não foi por simples acidente que Mário Luiz estava presente no Embu, cidade da periferia da Grande São Paulo, no começo da carreira de Rita Lee e nos primórdios da ascensão musical de outro futuro astro, Raul Seixas. Na mesma linha, participou das capas das primeiras gravações de muitos nomes hoje famosos da MPB.

Sua rica documentação iconográfica conta também - além da história da MPB durante boa parte da segunda metade desse século – a história pessoal de muitos dos retratados, acompanhados de perto pelo fotógrafo durante todos esses anos. Esse é o caso do amigo Gilberto Gil - cujas primeiras imagens datam ainda de sua mocidade - mas o mesmo poderia ser dito de muitos outros como Alceu Valença, Luís Melodia, Jorge Mautner, Armandinho, com quem as relações de trabalho de Mário Astral - como o chamam carinhosamente no meio musical - criaram laços de amizade duradoura. Inúmeros registros fotográficos dessas e de outras personalidades, que fazem parte de seu acervo, evidenciam um convívio, uma intimidade que vai muito além da simples relação profissional.

Por fim e no fundo de todas essas histórias de alguma maneira contadas, articuladas ou balbuciadas, elaboradas ou entrecortadas, emerge a própria biografia do fotógrafo, convertido em guardião de todos aqueles momentos pela impossibilidade de realização do seu sonho mais acalentado: tornar-se ele próprio um músico. Acreditando não dispor das qualificações necessárias, Mário Luiz - um meticuloso perfeccionista em seu trabalho - decidiu colocar-se a serviço do meio de expressão que mais o emociona e consagrou sua vida a registrar e preservar todos aqueles momentos tão intensamente vividos.

Em seu livro - que certamente irá se tornar uma referência para o futuro - desfilam desde ícones do passado, como Cartola, Nelson Cavaquinho, Braguinha e Ismael Silva, aos jovens talentos emergentes Lenine e Zeca Baleiro, passando pelas verdadeiras instituições musicais Dorival Caymmi, Radamés Gnatalli, Antônio Carlos Jobim, Hermeto Paschoal. Edu Lobo ou Egberto Gismonti, até os astros Roberto Carlos, Chico Buarque, Caetano Veloso, o amigo Gilberto Gil ou visionários do futuro como Walter Smetak.

Ao documentar o rigor investigativo de Walter Smetak, Mário Luiz Thompson prefigura o músico do futuro – representado também por Hermeto Paschoal - que encontra na natureza os sons que lhe servem de instrumento, com a consciência de que a imensa pluralidade da música brasileira não pode dispensar a polifonia instrumental desse criador europeu que buscava uma ampla expressão para a nossa riqueza melódica.

Suas imagens resgatam um tempo, hoje quase esquecido, de 30 anos atrás, retirando do fundo do baú da nossa memória - onde a poeira do tempo as deixou - as figuras legendárias de Aracy Cortes, Orlando Silva, Patativa do Assaré, Pena Branca e Xavantinho, Zé Côco do Riachão, Silvio Caldas, Waldir Azevedo e Zezé Gonzaga, além de outras mais recentes - porém não menos importantes – como Edson Machado, Geraldo Vandré, Germano Mathias, Nelson Gonçalves, Nelson Sargento, Victor Assis Brasil, Tonico e Tinoco, Turíbio Santos, o Trio Elétrico de Dodô e Osmar, Jorge Veiga e Roberto Silva, que exprimem uma energia que a ausência de sonhos dos dias de hoje nos retirou.
A todos eles não falta o olhar amplo e ecumênico do fotógrafo que, ao mesmo tempo em que lhes distingue as diferenças, confere-lhes o estatuto de praticantes de um ofício - que tem as características de um verdadeiro sacerdócio.

Vistos em seu conjunto, os dois volumes de Bem Te Vi Música Popular Brasileira apresentam um claro traço de rigor e coerência que compõe uma sinfonia de formas, cores, luzes, expressões e paisagens permeada por todos os mais diversos semblantes que pode assumir a deusa música, em sua contínua expressão do Todo múltiplo.

Sérvulo Siqueira

A CANTORA SIMONE E O ARRANJADOR RODOLFO STROETER VISTOS PELAS LENTES DE MARIO LUIZ THOMPSON
















O livro Música Popular Brasileira Vols, 1 e 2 da Editora Bem Te Vi mostra um painel de quem faz música no Brasil nos últimos 50 anos,item indispensável para todos os apreciadores de nossa música.













SIMONE BITTENCOURT DE OLIVEIRA É UMA ARTISTA CARISMÁTICA - A MAIS COMPLETA DO BRASIL - E ESTÁ SENDO CATALOGADA ENTRE AS MAIORES INTERPRETES DE TODO O MUNDO ... " diz Martinho da Vila na página 597 do Vol.2 do livro de Mário Luiz Thompson.



Na abertura do livro encontramos belo depoimento de João Gilberto a respeito do fotografo que diz assim: " Mario Luiz Thompson já vem da arte: sua mãe é uma grande artista. Seu caminho é fotografar a música - sua inspiração...".


"RODOLFO STROETER É UM CONTRABAIXISTA LÍDER. UM DOS GRANDES DE SUA GERAÇÃO, COMPOSITOR, ARRANJADOR E SOBRETUDO UM AGLUTINADOR DE MÚSICOS." DIZ - Toy Lima na página 575 do Vol.2 do livro de Mário Luiz Thompson